ADN tumoral circulante: uma análise ao sangue pode detetar cancro?
- 19 de ago.
- 15 min de leitura
Uma simples análise ao sangue consegue revelar a presença de um cancro? Em determinadas situações, pode fornecer pistas importantes. Mas isso não significa que o laboratório consiga diagnosticar qualquer tumor a partir de uma amostra de sangue.
O que se procura são vestígios moleculares libertados pelas células tumorais. Entre os mais estudados encontra-se o ADN tumoral circulante, conhecido pela sigla inglesa ctDNA, de circulating tumour DNA.

A análise deste material faz parte da chamada biópsia líquida. Em oncologia, esta abordagem já pode ser utilizada em situações clínicas específicas para identificar alterações moleculares de tumores conhecidos, ajudar a selecionar determinados tratamentos ou acompanhar a evolução molecular da doença. As recomendações da ESMO reconhecem a utilidade de testes de ctDNA validados no genótipo de determinados cancros avançados, embora ressalvem que a análise do tecido tumoral continua a ser necessária em muitas situações.
Muito diferente é utilizar uma análise ao sangue para procurar vários tipos de cancro numa pessoa sem sintomas. Os chamados testes de deteção precoce multi-cancro estão a evoluir rapidamente, mas ainda não demonstraram que possam substituir os programas de rastreio estabelecidos.
Para perceber porquê, é necessário começar por distinguir duas siglas próximas, mas que não significam a mesma coisa: cfDNA e ctDNA.
O que é o ADN tumoral circulante?
Quando as células do organismo morrem, nomeadamente através de processos como apoptose ou necrose, parte do seu ADN é fragmentada e libertada para a circulação.
Esses pequenos fragmentos formam o chamado ADN livre circulante, ou cfDNA, do inglês cell-free DNA.
No plasma, grande parte deste material apresenta uma organização relacionada com os nucleossomas. Um dos comprimentos mais característicos do cfDNA situa-se aproximadamente nos 166-167 pares de bases, embora exista uma distribuição mais ampla de fragmentos.
A análise de ADN livre no sangue não é exclusiva da oncologia. O diagnóstico pré-natal não invasivo, por exemplo, analisa fragmentos de ADN de origem placentária que circulam no sangue materno. Para compreender como esta tecnologia se integra noutras análises genéticas, pode consultar o nosso guia completo sobre testes de ADN e análise genética.
Qual é a diferença entre cfDNA e ctDNA?
Numa pessoa com cancro, uma parte do ADN livre encontrado no plasma pode ter origem nas células tumorais. É precisamente essa fração que recebe o nome de ADN tumoral circulante ou ctDNA.
O tumor primário, eventuais metástases e diferentes populações de células tumorais podem libertar ADN para o sangue. Esses fragmentos podem transportar características moleculares da doença, incluindo:
mutações;
alterações de metilação;
variações no número de cópias de determinadas regiões do genoma;
rearranjos e outras alterações genómicas.
O ctDNA tende igualmente a estar enriquecido em fragmentos mais curtos do que o cfDNA proveniente de células não tumorais. Esta diferença de fragmentação tornou-se, por si própria, uma área de investigação para melhorar a identificação de sinais tumorais.
O principal problema é quantitativo. Em determinadas situações, o ADN proveniente do tumor representa apenas uma fração extremamente pequena de todo o ADN livre presente no plasma. É possível que a quantidade seja tão reduzida que fique abaixo da capacidade de deteção do teste.
Porque é que alguns cancros libertam mais ctDNA do que outros?
A quantidade de ADN tumoral encontrada no sangue varia consideravelmente entre pessoas, tipos de tumor e fases da doença.
Pode ser influenciada pela dimensão do tumor, localização, vascularização, atividade biológica, presença de metástases, tratamento realizado e momento em que a amostra é colhida.
De forma geral, a fração de ctDNA tende a ser maior em doença avançada ou metastática do que em tumores pequenos e localizados.
É precisamente aqui que surge uma das maiores dificuldades da deteção precoce: quanto mais pequeno e inicial for o tumor, maior poderá ser o benefício de o descobrir cedo, mas menor tende a ser o sinal molecular disponível no sangue.
Uma pequena lesão pode libertar tão pouco ADN que alguns fragmentos tumorais ficam praticamente perdidos entre milhões de moléculas provenientes de células normais.
Esta limitação biológica não pode ser eliminada apenas tornando os equipamentos de sequenciação mais rápidos. É necessário aumentar a sensibilidade sem provocar simultaneamente um número excessivo de falsos positivos.
Como é detetado o ADN tumoral numa análise ao sangue?
Depois da colheita, o sangue é processado de modo a separar o plasma das células sanguíneas. O cfDNA é extraído desse plasma e analisado através de métodos moleculares de elevada sensibilidade.
Entre as tecnologias mais utilizadas encontram-se a sequenciação de nova geração (NGS) e a PCR digital.
NGS: analisar simultaneamente muitas regiões do ADN
A sequenciação de nova geração permite estudar um grande número de sequências em paralelo.
Em vez de procurar exclusivamente uma mutação previamente conhecida, um painel NGS pode analisar dezenas ou centenas de genes ou regiões genómicas. Isto permite obter uma visão molecular mais abrangente do tumor.
Em oncologia, essa informação pode ser particularmente relevante quando é necessário procurar alterações associadas a tratamentos dirigidos ou compreender mecanismos de resistência.
A dificuldade consiste em separar uma verdadeira variante tumoral de erros técnicos ou de sinais provenientes de outras células. Por isso, os testes de ctDNA exigem procedimentos rigorosos desde a colheita e conservação do sangue até à extração, sequenciação, análise bioinformática e interpretação clínica.
PCR digital: elevada sensibilidade para uma alteração específica
A PCR digital, incluindo a ddPCR ou PCR digital em gotas, utiliza uma estratégia diferente.
A amostra é dividida num grande número de pequenas reações. Cada uma é analisada individualmente, permitindo contar as moléculas que apresentam uma determinada variante.
Esta técnica é particularmente útil quando já se sabe exatamente qual a alteração genética que deve ser procurada.
De forma simplificada, o NGS é especialmente indicado para responder a perguntas como “que alterações estão presentes neste ADN?”, enquanto a PCR digital é muito eficiente quando a pergunta é “esta alteração específica está presente e em que quantidade?”.
Testes tumor-informed e tumor-agnostic: duas estratégias diferentes
Nem todos os testes de ctDNA começam com a mesma informação.
Abordagem tumor-informed
Num teste tumor-informed, o laboratório conhece previamente determinadas alterações genéticas do tumor do próprio doente.
Uma biopsia ou peça cirúrgica pode, por exemplo, ter identificado mutações específicas. O teste sanguíneo é então concebido para procurar exatamente essas alterações no plasma.
Como o laboratório sabe previamente quais os sinais que procura, esta estratégia pode aumentar a capacidade de identificar quantidades muito pequenas de ADN tumoral.
É uma das abordagens investigadas para detetar doença residual molecular depois de uma cirurgia ou de outro tratamento realizado com intenção curativa.
Abordagem tumor-agnostic
Num teste tumor-agnostic, não é necessário possuir previamente um perfil molecular do tumor.
O sistema procura diretamente no sangue alterações ou padrões compatíveis com um sinal tumoral.
Esta estratégia torna-se necessária quando ainda não existe tecido tumoral caracterizado, como acontece na investigação sobre testes destinados à deteção precoce de cancro em pessoas sem diagnóstico conhecido.
Os testes multi-cancro não analisam apenas mutações
Quando a quantidade de ctDNA é muito reduzida, procurar exclusivamente mutações específicas pode ser insuficiente.
Por esse motivo, uma parte importante da investigação passou a estudar outras características do ADN circulante. Uma delas é a metilação do ADN.
A metilação consiste na adição de determinados grupos químicos ao ADN e participa na regulação da atividade dos genes. As células tumorais podem apresentar padrões de metilação diferentes dos encontrados em tecidos saudáveis.
Um teste pode analisar milhares de regiões e utilizar modelos computacionais para reconhecer uma combinação compatível com um sinal de cancro.
Algumas tecnologias tentam ainda prever qual o tecido ou órgão mais provável de origem desse sinal.
É esta uma das estratégias utilizadas pelos testes designados MCED, sigla de Multi-Cancer Early Detection.
Para que serve atualmente uma biópsia líquida?
É fundamental separar dois contextos.
Um deles é analisar o ctDNA de uma pessoa que já tem um cancro diagnosticado. O outro é utilizar uma análise ao sangue para tentar encontrar um cancro numa pessoa saudável e sem sintomas.
As tecnologias podem ser semelhantes, mas o nível de evidência e as consequências clínicas são muito diferentes.
Procurar alterações moleculares para orientar o tratamento
Uma das aplicações clínicas mais consolidadas do ctDNA é o estudo molecular de cancros já conhecidos, sobretudo em doença avançada.
Alguns tumores apresentam alterações genéticas que podem ser utilizadas para selecionar tratamentos dirigidos. Quando existe um teste de ctDNA adequadamente validado, o plasma pode fornecer material molecular útil sem ser necessário obter imediatamente uma nova amostra tumoral.
A ESMO considera que testes sensíveis e validados de ctDNA podem ser utilizados para genotipar determinados cancros avançados e identificar alterações tratáveis. A mesma recomendação chama, contudo, a atenção para uma limitação decisiva: um resultado plasmático negativo pode ser falso negativo e exigir uma análise do tecido tumoral.
Como se enquadra a medicina molecular em Portugal?
Em Portugal, a utilização de sequenciação NGS já faz parte da oncologia molecular em indicações específicas. Um consenso português publicado na Acta Médica Portuguesa descreve, por exemplo, a utilização de NGS no cancro do pulmão, tumores raros e cancros de origem primária desconhecida, salientando igualmente a importância do controlo de qualidade e da interpretação multidisciplinar dos resultados.
Isto não significa que qualquer painel de ctDNA seja automaticamente indicado para todos os doentes com cancro. A utilidade depende do tipo de tumor, da fase da doença, das alterações que se pretende identificar, da qualidade do teste e da disponibilidade de uma amostra de tecido.
Também não se deve confundir esta utilização médica orientada por oncologistas com um teste comercial destinado a procurar dezenas de cancros numa pessoa sem sintomas.
Para contextualizar estas análises no conjunto mais amplo das técnicas genéticas disponíveis, consulte também os diferentes testes de ADN disponíveis.
É possível acompanhar a resposta ao tratamento através do ctDNA?
Uma das características mais interessantes do ADN tumoral circulante é a sua natureza dinâmica.
Quando um tratamento reduz eficazmente a população tumoral, a quantidade ou composição do ctDNA pode alterar-se. Pelo contrário, o aparecimento de novas alterações pode fornecer informação sobre progressão ou sobre mecanismos moleculares de resistência.
Esta possibilidade explica o interesse crescente na realização de análises sucessivas ao longo do tratamento.
No entanto, o ctDNA não deve ser interpretado isoladamente. A avaliação de uma pessoa com cancro pode combinar informação clínica, anatomopatológica, imagiológica e molecular.
Uma alteração num teste sanguíneo não substitui automaticamente uma TAC, ressonância magnética, PET, biopsia ou outro exame clinicamente indicado.
Esta integração de diferentes fontes de informação faz parte da evolução da medicina de precisão, tema desenvolvido também no nosso artigo sobre os avanços da genética na medicina e na prevenção.
Doença residual molecular: o ctDNA consegue encontrar um cancro que a imagiologia não vê?
Depois de uma cirurgia ou de outro tratamento realizado com intenção curativa, podem permanecer no organismo quantidades microscópicas de células tumorais.
Essas células podem ser demasiado escassas para formarem uma lesão identificável pelos exames de imagem.
Se libertarem ADN para o sangue, um teste suficientemente sensível poderá eventualmente detetar esse sinal. É neste contexto que se fala de doença residual molecular, frequentemente abreviada como MRD.
Em vários tipos de tumores sólidos, a persistência de ctDNA após tratamento está fortemente associada a maior risco de recorrência. Estudos e meta-análises mostram igualmente uma relação entre eliminação do ctDNA após tratamento e prognósticos mais favoráveis.
Existe, contudo, uma distinção clínica essencial.
Demonstrar que um biomarcador consegue identificar pessoas com maior probabilidade de recorrência não prova automaticamente que modificar o tratamento com base nesse biomarcador melhora a sobrevivência.
É por isso que continuam a ser necessários ensaios clínicos randomizados para determinar em que cancros uma estratégia orientada pelo ctDNA permite intensificar, reduzir ou alterar tratamentos com benefício real para o doente. Mesmo em 2026, a implementação generalizada continua limitada pela falta de evidência de alto nível em muitos contextos tumorais.
Uma análise ao sangue pode detetar cancro numa pessoa sem sintomas?
Esta é uma das aplicações que mais atenção tem recebido.
A ideia biológica é simples: se um tumor começa a libertar material molecular antes de provocar sintomas, poderá ser possível identificar esse sinal através de uma colheita de sangue.
O desafio está nas exigências de um verdadeiro programa populacional de rastreio.
Um teste aplicado a centenas de milhares ou milhões de pessoas maioritariamente saudáveis precisa de possuir uma especificidade muito elevada para evitar demasiados falsos positivos.
Ao mesmo tempo, precisa de ser suficientemente sensível para não deixar passar uma proporção excessiva de cancros.
Alcançar simultaneamente estes dois objetivos é particularmente difícil quando os tumores iniciais libertam quantidades mínimas de ADN.
Galleri: o que sabemos atualmente sobre o teste multi-cancro mais conhecido?
O Galleri, desenvolvido pela GRAIL, é um dos testes MCED mais estudados.
A tecnologia analisa padrões de metilação presentes no cfDNA e utiliza algoritmos para procurar sinais associados a mais de 50 tipos de cancro. Quando encontra um sinal, tenta igualmente prever a sua provável origem no organismo.
É importante compreender que um teste deste tipo não confirma um diagnóstico de cancro.
Um resultado positivo exige investigação através de procedimentos diagnósticos convencionais. Da mesma forma, um resultado negativo não demonstra que a pessoa esteja livre de cancro.

PATHFINDER 2: especificidade muito elevada, mas sensibilidade bastante inferior
Os primeiros resultados de PATHFINDER 2 apresentados em 2025 já tinham mostrado uma especificidade elevada. Entretanto, a análise da coorte completa, apresentada no congresso ASCO de 2026, permitiu atualizar os valores.
O estudo incluiu 35 878 participantes com 50 ou mais anos e sem suspeita clínica de cancro.
Na análise completa:
a especificidade foi de 99,6%;
o valor preditivo positivo foi de 60,3%;
a sensibilidade por episódio foi de 39,3% para o conjunto dos cancros;
no grupo pré-definido de 12 cancros responsáveis por uma grande parte da mortalidade oncológica nos Estados Unidos, atingiu 69,8%;
a primeira previsão da origem do sinal esteve correta em 91,3% dos casos avaliáveis.
Além disso, 53% dos novos cancros encontrados pelo Galleri estavam nos estádios I ou II.
Estes números mostram por que razão é enganador descrever um teste deste género apenas através da sua “precisão de 99%”.
A especificidade de 99,6% indica que são relativamente raros os resultados positivos entre pessoas sem cancro. Não significa que o teste identifique 99,6% dos cancros.
A sensibilidade global de 39,3% demonstra precisamente o contrário: uma proporção significativa dos cancros diagnosticados durante o período considerado não produziu um resultado positivo no teste.
É igualmente necessário ter presente que PATHFINDER 2 foi realizado sobretudo nos Estados Unidos e Canadá e que o teste é desenvolvido pela própria GRAIL. Estes resultados devem ser interpretados juntamente com evidência independente e, sobretudo, com ensaios que avaliem benefício clínico real.
NHS-Galleri: o grande ensaio randomizado não atingiu o objetivo principal
Uma questão ainda mais importante do que medir sensibilidade e especificidade é saber se utilizar um teste MCED numa população saudável muda efetivamente o curso da doença.
Foi essa a lógica do NHS-Galleri, o primeiro grande ensaio randomizado desta tecnologia.
O estudo foi realizado em Inglaterra e incluiu cerca de 143 mil participantes entre os 50 e os 77 anos, sem sintomas sugestivos de cancro no momento da inclusão.
O objetivo principal era determinar se adicionar o Galleri aos rastreios existentes reduzia de forma estatisticamente significativa o número de cancros diagnosticados nos estádios III e IV num grupo previamente definido de 12 tipos de cancro.
Esse objetivo principal não foi atingido.
Foram observados sinais potencialmente favoráveis em análises secundárias, incluindo uma redução dos diagnósticos em estádio IV ao longo das rondas sucessivas. No entanto, houve simultaneamente um aumento dos diagnósticos em estádio III, sobretudo na primeira ronda, razão pela qual a combinação dos estádios III e IV não apresentou a redução estatisticamente significativa exigida pelo protocolo.
Uma análise científica publicada em agosto de 2026 sublinha precisamente esta distinção: os dados são relevantes e demonstram a capacidade de identificar sinais tumorais no sangue, mas não permitem transformar os resultados secundários favoráveis numa demonstração de eficácia global quando o critério principal falhou.
A questão da mortalidade permanece particularmente importante. Detetar um tumor mais cedo só representa um benefício populacional inequívoco se essa antecipação se traduzir, em última análise, numa melhoria dos resultados clínicos e não apenas numa alteração da data ou do estádio do diagnóstico.
Qual é a situação dos testes multi-cancro em Portugal?
Em Portugal, os programas populacionais de rastreio estabelecidos abrangem atualmente cancro da mama, cancro do colo do útero e cancro colorretal. O rastreio do cancro do pulmão tem sido objeto de desenvolvimento específico, mas não deve ser apresentado como um programa populacional nacional equivalente aos três anteriores.
Os testes sanguíneos MCED não fazem parte destes programas populacionais estabelecidos.
Consequentemente, uma análise deste género não deve ser utilizada como substituto de uma mamografia, rastreio do colo do útero ou rastreio colorretal quando a pessoa reúne os critérios para participar nesses programas.
A elevada especificidade de um teste MCED não elimina as limitações de sensibilidade, o risco de falsos negativos, a necessidade de investigação após um resultado positivo nem a incerteza atual sobre o impacto final na mortalidade.
Porque é que um resultado negativo de ctDNA não exclui um cancro?
Para encontrar ADN tumoral no sangue, é necessário que o tumor liberte uma quantidade suficiente de material e que o teste consiga reconhecê-lo.
Um tumor pequeno pode libertar pouco ctDNA, fazê-lo de forma irregular ou apresentar características moleculares que diminuem a capacidade de deteção.
A anatomia também desempenha um papel. Nem todos os tumores libertam ADN para a circulação com a mesma facilidade.
Por isso, um resultado negativo significa essencialmente que o teste não identificou o sinal molecular procurado naquela amostra e naquele momento.
Não significa que esteja demonstrada a ausência de cancro.
Esta limitação é importante tanto nos testes de rastreio como na oncologia molecular. As recomendações europeias sobre ctDNA salientam que, em determinados cancros avançados, um resultado plasmático não informativo ou negativo deve ser complementado por análise do tecido quando esta é possível e clinicamente necessária.
Porque podem ocorrer falsos positivos?
Nem todas as alterações genéticas detetadas no sangue pertencem obrigatoriamente a um tumor sólido.
Uma das fontes de interferência mais importantes é a hematopoiese clonal.
Ao longo da vida, algumas células estaminais da medula óssea podem adquirir mutações e dar origem a populações de células sanguíneas que transportam essas alterações.
O ADN libertado por essas células também entra no conjunto do cfDNA analisado no plasma. Se não existir um método adequado para distinguir a sua origem, determinadas variantes podem ser interpretadas incorretamente como sinais tumorais.
A literatura descreve inclusive falsos positivos de ctDNA provocados por hematopoiese clonal.
Além desta interferência biológica, existem outras possíveis fontes de erro relacionadas com a colheita, conservação da amostra, processamento do plasma, extração do ADN, sequenciação e interpretação bioinformática.
É precisamente por isso que a qualidade laboratorial é tão importante quanto a tecnologia utilizada.
Biópsia líquida ou biópsia de tecido: uma substitui a outra?
As duas técnicas fornecem informações diferentes.
Uma biópsia de tecido permite observar diretamente as células, a sua arquitetura, relação com os tecidos circundantes e diferentes características histológicas. Continua a ser indispensável para diagnosticar e classificar muitos cancros.
A biópsia líquida permite obter determinadas informações moleculares de forma pouco invasiva.
Entre as suas vantagens encontram-se a facilidade de repetir uma colheita de sangue, a possibilidade de obter dados quando uma lesão é difícil de biopsar e a capacidade potencial de acompanhar alterações moleculares ao longo do tempo.
Pode igualmente captar material proveniente de diferentes populações tumorais, enquanto uma biopsia localizada representa apenas a região efetivamente recolhida.
Mas estas vantagens não eliminam as limitações:
determinados tumores libertam quantidades muito reduzidas de ctDNA;
um resultado negativo não exclui necessariamente uma alteração existente no tumor;
algumas variantes encontradas no sangue podem ter origem não tumoral;
a análise de ctDNA não fornece toda a informação histológica disponível numa amostra de tecido.
Na prática clínica atual, é mais rigoroso considerar biópsia líquida e biópsia de tecido como ferramentas complementares, cuja utilização depende da situação concreta.

ADN tumoral circulante: o que já está estabelecido e o que continua em investigação?
O ctDNA deixou de ser apenas uma hipótese experimental.
Existem situações em oncologia molecular nas quais testes plasmáticos devidamente validados conseguem identificar alterações genéticas clinicamente relevantes, sobretudo em cancros avançados. A possibilidade de repetir análises ao longo do tempo também torna o ctDNA particularmente interessante para estudar resistência terapêutica e evolução molecular.
A doença residual molecular é igualmente uma das áreas mais promissoras. Já existe evidência robusta de que a presença de ctDNA após tratamento pode ter forte valor prognóstico em vários cancros. O passo seguinte é demonstrar em cada contexto que agir com base nessa informação melhora efetivamente os resultados clínicos.
Muito diferente é utilizar uma análise sanguínea como teste universal de rastreio multi-cancro.
Os estudos MCED demonstram que é tecnicamente possível detetar sinais moleculares associados a diferentes tumores e, em muitos casos, prever a sua origem.
Mas a experiência com Galleri mostra também as limitações: a especificidade pode ser muito elevada enquanto a sensibilidade permanece bastante inferior; além disso, o primeiro grande ensaio randomizado não conseguiu atingir o seu critério principal de redução combinada dos diagnósticos em estádios III e IV.
Por isso, uma biópsia líquida não deve ser apresentada ao público como um “teste sanguíneo universal contra o cancro”.
Conclusão: o sangue pode revelar ADN de um tumor, mas ainda não existe um teste universal para todos os cancros
O ADN tumoral circulante representa uma das evoluções mais importantes da oncologia molecular.
Uma população de células cancerígenas pode libertar minúsculos fragmentos de material genético para a circulação. Com tecnologias como NGS, PCR digital e análise de padrões epigenéticos, é possível estudar parte dessa informação sem recolher diretamente tecido tumoral.
A biópsia líquida já possui aplicações clínicas relevantes, sobretudo no perfil molecular de determinados cancros conhecidos. O acompanhamento da resposta ao tratamento e a deteção de doença residual molecular constituem outras áreas de investigação e implementação particularmente ativas.
O cenário é diferente quando falamos de rastrear simultaneamente dezenas de cancros numa pessoa sem sintomas.
Os testes MCED demonstraram uma capacidade real para detetar alguns desses cancros através do sangue, mas continuam a falhar outros. Além disso, o NHS-Galleri mostrou em 2026 que uma tecnologia capaz de encontrar sinais tumorais não demonstra automaticamente um benefício populacional suficiente para alterar os programas de rastreio.
Para quem vive em Portugal, a mensagem prática é clara: os testes de ctDNA podem ter utilidade em situações oncológicas específicas, quando indicados e interpretados no contexto clínico adequado. Não substituem os rastreios oncológicos recomendados nem permitem excluir, por si só, a existência de um cancro.
Uma análise ao sangue consegue detetar um cancro?
Pode identificar determinados sinais moleculares associados a um tumor, incluindo ADN tumoral circulante. A capacidade de deteção depende, porém, do tipo de cancro, estádio da doença, quantidade de ctDNA disponível e tecnologia utilizada. Atualmente, nenhuma análise de ctDNA permite diagnosticar ou excluir isoladamente todos os tipos de cancro.
Qual é a diferença entre cfDNA e ctDNA?
O cfDNA corresponde ao conjunto de fragmentos de ADN livre presentes na circulação e pode ter origem em diferentes células do organismo. O ctDNA é apenas a fração desse ADN que provém das células tumorais.
O que é uma biópsia líquida?
É uma análise realizada a componentes biológicos presentes num fluido corporal, geralmente sangue. Em oncologia, pode estudar ADN tumoral circulante, células tumorais circulantes ou outros biomarcadores. Ao contrário de uma biopsia convencional, não exige necessariamente a recolha direta de um fragmento do tumor.
Um resultado ctDNA negativo significa que não tenho cancro?
Não. Determinados tumores libertam quantidades insuficientes de ADN para serem detetados. Um resultado negativo indica apenas que o teste não encontrou o sinal procurado na amostra analisada. Não permite excluir formalmente a presença de cancro.
Os testes sanguíneos multi-cancro fazem parte do rastreio de rotina em Portugal?
Não. Em Portugal, os programas populacionais estabelecidos abrangem atualmente os rastreios do cancro da mama, colo do útero e colorretal. Os testes MCED não fazem parte destes programas e não devem substituir os métodos de rastreio recomendados.
